José Lev Alvarez / Times of Israel
Caracas não apenas se fragmentou; revelou um eixo subterrâneo que, por anos, conectou Havana, Teerã, Moscou e Caracas em um único sistema operacional anti-Ocidente.
Sob o chavismo, a Venezuela jamais foi uma petroditadura isolada. Era um nó — treinado e assessorando por inteligência cubana, ideologicamente alinhado ao Irã, militarmente cortejado pela Rússia e operacionalmente permissivo a financiamentos e logística terrorista.
Para Israel, isso importa não apenas retoricamente, mas estruturalmente. O que colapsa hoje na Venezuela repercute diretamente no Oriente Médio amanhã.
O ditador venezuelano e líder do tráfico de drogas, Nicolás Maduro, não surgiu do nada. Foi treinado pelos serviços de inteligência cubanos, que exportaram integralmente sua doutrina de segurança — centrada no controle populacional, infiltração de contrainteligência e sobrevivência do regime — para a arquitetura estatal venezuelana.
Cuba não funcionou como um relicário nostálgico do socialismo da Guerra Fria, mas como o cérebro do regime, alocando assessores nos órgãos militares, de inteligência e de segurança interna da Venezuela. Essa “cubanização” do Estado venezuelano é bem documentada e explica como o chavismo sobreviveu a sanções, protestos e colapso econômico muito além do que regimes comparáveis suportariam.
Mas Cuba sozinha não bastava. O regime precisava de músculo externo e profundidade ideológica — e é aí que o Irã entrou de forma decisiva.
A Venezuela tornou-se o parceiro estratégico mais confiável de Teerã no Hemisfério Ocidental, facilitando cooperação de inteligência, evasão de sanções e operação de proxies. Não se tratava de solidariedade simbólica, mas de alinhamento operacional.
Redes ligadas ao Hezbollah exploraram o ambiente financeiro permissivo da Venezuela, a falsificação de documentos e a infraestrutura portuária, enquanto entidades estatais iranianas usavam Caracas como laboratório para burlar sanções.
Para Israel, isso não é curiosidade latino-americana; é uma extensão direta da estratégia regional iraniana. Hezbollah e Hamas não precisam de embaixadas, mas de ecossistemas permissivos. A Venezuela forneceu exatamente isso.
Através de finanças ilícitas, rotas de narcóticos, documentação falsificada e centros de trânsito protegidos — incluindo a Isla Margarita — atores ligados ao terrorismo ganharam liberdade de movimento e financiamento longe da pressão do Oriente Médio.
Enquanto isso, a famosa região da tríplice fronteira serviu como retaguarda financeira, com a Venezuela atuando como escudo. É assim que ameaças híbridas modernas sobrevivem: dispersão geográfica sob cobertura política.
Portanto, os interesses de Israel se alinham diretamente a uma transição venezuelana. Remover o chavismo não é apenas mudança de regime; é o colapso de uma plataforma auxiliar iraniana nas Américas, restringindo redes de financiamento do Hezbollah, limitando o alcance da inteligência iraniana e retirando de Teerã profundidade estratégica fora do Oriente Médio.
O paralelo do Oriente Médio é elucidativo. Israel entende melhor do que qualquer outro país que ideologia é secundária à infraestrutura. Hamas sobreviveu não por slogans, mas por túneis, fluxos de dinheiro e patrocinadores externos. Hezbollah evoluiu para um exército híbrido não por retórica, mas porque o Irã forneceu logística, treinamento e proteção estatal. A Venezuela desempenhou papel equivalente, em escala e geografia diferentes, para o mesmo ecossistema conectado.
O mesmo raciocínio aplica-se além dos beligerantes diretos. Cuba, ainda exportando terrorismo de esquerda na Venezuela, embora nunca tenha lutado contra Israel no Sinai, integrou-se ao mesmo ecossistema: enviou forças expedicionárias para a Síria em 1973 e depois posicionou tropas e unidades de defesa aérea no Egito, exportando doutrina militar, de inteligência e de comando alinhada à União Soviética.
Em ambos os casos, a hostilidade diminuiu não por sentimentos, mas por mudanças estruturais, realinhamento estratégico e incentivos externos. Estados alteram comportamento externo quando seus sistemas estratégicos mudam, não quando mudam slogans.
A Venezuela agora se encontra nesse ponto crítico. Um governo pós-Maduro legítimo — potencialmente liderado por figuras como María Corina Machado — representaria não apenas renovação democrática, mas realinhamento geopolítico decisivo, rompendo com o eixo Irã–Cuba–Rússia.
O papel de Israel deve ser estrategicamente claro. Restabelecer relações com um governo legítimo venezuelano não é questão de imagem, mas de negar território e influência a Teerã. Jerusalém pode oferecer o que importa em recuperação pós-autoritária: arquitetura de combate ao financiamento terrorista, sistemas de segurança portuária e de fronteiras, defesa cibernética para infraestrutura crítica, tecnologias agrícolas e hídricas que estabilizem populações, e cooperação de inteligência contra convergência de crime transnacional e terrorismo. Não são gestos de soft power, mas ferramentas de soberania.
Para a América Latina, isso importa porque conflitos do Oriente Médio importados se expandem localmente. Para Israel, cada jurisdição permissiva no exterior torna-se um problema operacional em casa. A erosão dos fluxos financeiros do Hezbollah nas Américas enfraquece sua capacidade operacional no Líbano e limita o alcance iraniano global.
A história raramente oferece vitórias definitivas — apenas oportunidades que devem ser aproveitadas. Se a Venezuela realmente abandona o modelo de segurança chavista-cubano e rompe com Teerã, Israel deve agir com rapidez, clareza e seriedade institucional. O Oriente Médio não está isolado da América Latina; ele se reflete ali. E quando um espelho se quebra, o reflexo se distorce em todos os lugares.
Que a liberdade para a Venezuela se realize — que líderes democráticos legítimos, incluindo María Corina Machado e a oposição, reconquistem a nação; que os oito milhões de exilados retornem; e que haja justiça para cada preso político, cada torturado e cada vida esmagada pelo regime.
Link original do artigo: Maduro’s Fall and Israel’s Strategic Opening