Björn Stritzel/Euractiv
Um documento interno do Hamas, obtido pelo site Euractiv, indica que o ex-enviado da União Europeia para os territórios palestinos, Sven Kühn von Burgsdorff, assumiu posições divergentes da política oficial do bloco e vistas com simpatia por líderes do Hamas em Gaza.
Kühn von Burgsdorff atuou como embaixador da UE junto aos territórios palestinos e à Faixa de Gaza entre janeiro de 2020 e julho de 2023.
Durante seu mandato, foi alvo de críticas recorrentes de autoridades israelenses e também dentro da própria União Europeia, por adotar posturas consideradas fora das diretrizes de Bruxelas — incluindo garantias dadas a ONGs palestinas acusadas de empregar terroristas, assegurando que não perderiam recursos europeus, apesar do endurecimento das regras contra o financiamento ao terrorismo.

Parapente em Gaza
A controvérsia atingiu o ápice em julho de 2023, pouco antes de sua saída do cargo, quando Kühn von Burgsdorff praticou parapente em Gaza. Em vídeos gravados no território controlado pelo Hamas, ele se mostrou entusiasmado ao falar de uma “Palestina livre”. Semanas depois, o Hamas realizou o ataque de 7 de outubro contra Israel, que deixou mais de mil mortos e cerca de 250 sequestrados.
Agora, um documento interno do Hamas, apreendido pelas Forças de Defesa de Israel durante a ofensiva militar posterior em Gaza, sugere que líderes islamistas do enclave tinham o diplomata europeu em alta consideração. A ONG israelense NGO Monitor analisou o material e compartilhou suas conclusões com o Euractiv. No documento, datado de 28 de setembro de 2021, autoridades do Ministério do Interior de Gaza, controlado pelo Hamas, descrevem Kühn von Burgsdorff como “uma figura profissional” que “apoia fortemente e simpatiza com os palestinos”.
“Ele está exigindo [que a UE] abra canais oficiais para dialogar com o Hamas, mas a política pública da União Europeia rejeita isso”, afirma o texto.
Ao mesmo tempo, os próprios dirigentes do Hamas reconhecem que a postura do diplomata não refletia a posição institucional da UE e poderia mudar com sua saída.
“A abordagem positiva e as inclinações do representante da União Europeia junto aos territórios palestinos, bem como sua simpatia pela causa palestina, são uma postura pessoal, e isso pode mudar quando o atual representante da UE for substituído, já que a posição europeia está comprometida com as linhas vermelhas das políticas americanas”, diz o documento.
Questionado sobre a avaliação do Hamas a respeito de sua conduta, Kühn von Burgsdorff afirmou ao Euractiv que sempre atuou dentro de seu mandato.
“Defendi o direito à autodeterminação do povo palestino, consagrado no direito internacional, em total conformidade com a política aplicável da União Europeia”, declarou.
Ele acrescentou que sempre representou a posição oficial de Bruxelas. “Em nenhum momento fiz declarações públicas que contrariassem a política oficialmente adotada pela UE em relação a Israel e à Palestina”, afirmou.
No ano passado, Kühn von Burgsdorff publicou dois artigos de opinião no Euractiv sobre o conflito em Gaza, incluindo um com o título “O colapso moral da União Europeia”.
“Mártires de Jerusalém”
O relatório do Hamas também afirma que Kühn von Burgsdorff era “odiado tanto pela ocupação israelense quanto pela Autoridade Palestina” devido à sua solidariedade com os chamados “mártires de Jerusalém”, cujas casas foram demolidas, e às manifestações de pesar após a morte sob custódia de Nizar Banat, ativista palestino e crítico da Autoridade Palestina.
O documento recomenda o fortalecimento da coordenação e da comunicação entre a União Europeia e “partidos políticos, governamentais e do movimento [Hamas] palestino”.
Olga Deutsch, vice-presidente da ONG Monitor, afirmou que os documentos confirmam que Kühn von Burgsdorff “trabalhou ativamente para minar as políticas oficiais da União Europeia de verificação contra o terrorismo”.
“É profundamente preocupante ver um alto diplomata da UE engajado em ativismo político ideológico aberto, especialmente quando isso beneficia um grupo terrorista designado pela própria União Europeia”, disse Deutsch ao Euractiv. “Nas próprias palavras do Hamas, ele chegou a ‘exigir’ a abertura de canais oficiais da UE para dialogar com uma organização terrorista proscrita — uma subversão chocante das regras europeias e uma contradição explícita da política pública do bloco.”
Ela acrescentou que a União Europeia precisa reforçar de forma significativa seus mecanismos internos de controle e verificação. “Como a UE pode garantir que seus beneficiários de recursos não estejam promovendo o terrorismo se não consegue sequer responder pela conduta de seus próprios diplomatas?”, questionou.
Leia o texto original: Hamas document casts shadow over former EU envoy’s role in Gaza