Uma articulação discreta do presidente Lula para afastar partidos do Centrão da órbita de Flávio Bolsonaro acabou produzindo um resultado inesperado. A iniciativa buscava reduzir o tempo de rádio e televisão do campo adversário e reorganizar alianças regionais, sobretudo no Nordeste. No entanto, o vazamento da estratégia transformou uma negociação reservada em um episódio de desgaste político com repercussões opostas às pretendidas.
O plano envolvia esvaziar o apoio de siglas como PP e União Brasil ao senador, diminuindo a exposição eleitoral em meios tradicionais ainda relevantes para parcelas do eleitorado. Além disso, a neutralidade dessas legendas permitiria maior flexibilidade nos palanques estaduais, evitando uma polarização antecipada em regiões estratégicas. Dentro desse contexto, Lula recebeu o presidente do PP, Ciro Nogueira, em encontro reservado realizado em dezembro, na Granja do Torto.
A reunião, contudo, tornou-se pública. A exposição gerou reação imediata. Colocado sob pressão após o vazamento, Ciro Nogueira passou a sinalizar aproximação com Flávio Bolsonaro, afirmando que um eventual apoio dependeria apenas da ampliação do discurso do senador para além de seu eleitorado tradicional. O episódio acabou convertendo uma tentativa de neutralização em impulso político ao adversário. No jogo de bastidores, a estratégia vazada acabou funcionando como um presente inesperado para quem se pretendia enfraquecer.